A pandemia da doença de Coronavírus 2019 (COVID-19) está evoluindo em todo o mundo e, em 11 de maio, o número de casos confirmados no mundo era de cerca de 4.200.000 em praticamente todos os países e territórios, com mais de 284.000 mortes. [1] No Brasil (população 209,5 milhões), o primeiro caso COVID-19 foi notificado em 23 de fevereiro. Até 11 de maio, o país tinha, segundo estatísticas oficiais, mais de 162.000 casos confirmados e mais de 11.000 mortes – correspondendo a 765 casos e 52 mortes por milhão de habitantes, respectivamente. [2]

Esses números devem ser considerados com cautela, pois as estatísticas oficiais disponíveis sobre prevalência de doenças, mortalidade e letalidade estão sujeitas a grande incerteza, principalmente devido à falta de informações sobre a prevalência em nível populacional, bem como a diferentes critérios usados ​​para considere uma morte como sendo causada por COVID-19 ou não. Estudos populacionais são raros e geralmente apresentam baixos níveis de infecção, como na Áustria (0,33%) [3] e na Islândia (0,6%), [4] enquanto que em estudos com voluntários, a prevalência tende a ser maior – 2,1% na Coréia do Sul [5] e 2,5% a 4,2% em Santa Clara, Califórnia. [6] Um número de prevalência mais alto foi observado em uma pequena cidade na Alemanha, recentemente pouco afetada pela infecção, onde a prevalência foi de 14%. [7]

As estimativas de prevalência obtidas de amostras de conveniência podem estar sujeitas a vieses de amostragem e sua representatividade é difícil de avaliar. Amostras probabilísticas de uma população-alvo, por outro lado, podem garantir essa representatividade e levar a estratégias de saúde pública baseadas em evidências mais eficazes. [8] Estimar a proporção de pessoas com anticorpos em toda a população é especialmente relevante para o COVID-19, pois parece que mais de 60% das pessoas infectadas pelo vírus do Coronavírus 2 da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS-CoV-2) apresentam sintomas leves ou são mesmo assintomáticos, 10 mesmo que possam transmitir a doença. Além disso, na atual situação de políticas restritivas ao contato social, o conhecimento sobre a proporção da população com anticorpos e, consequentemente, o número de pessoas suscetíveis à infecção, será essencial para planejar o retorno gradual às atividades normais.

Neste manuscrito, apresentamos o protocolo do estudo EPICOVID19, um estudo populacional de várias etapas em âmbito nacional para estimar a prevalência e a evolução da doença de COVID-19 no Brasil. A Figura 1 exibe o logotipo do estudo, que representa uma analogia entre o COVID-19 e um iceberg. O número de casos confirmados com base em estatísticas oficiais é análogo à parte visível do iceberg (localizada acima do nível do mar), enquanto o número total de casos no nível da população é análogo à parte oculta do iceberg, abaixo do mar .

Referências

1. Johns Hopkins – Coronavirus Resource Center. https://coronavirus.jhu.edu/map.html. 2020.

2. No Title. https://covid.saude.gov.br. 2020.

3. Ogris G, Hofinger C. COVID-19 Prevalence. 2020. https://www.sora.at/uploads/media/Austria_COVID-19_Prevalence_BMBWF_SORA_20200410_EN_Version.pdf.

4. Gudbjartsson DF, Helgason A, Jonsson H, Magnusson OT, Melsted P, Norddahl GL, et al. Spread of SARS-CoV-2 in the Icelandic Population. N Engl J Med. 2020;:NEJMoa2006100. doi:10.1056/NEJMoa2006100.

5. Ministry of Health and Welfare (South Korea). Coronavirus disease 19, Republic of South Korea. 2020.

6. Bendavid E, Mulaney B, Sood N, Shah S, Ling E, Bromley-Dulfano R, et al. COVID-19 Antibody Seroprevalence in Santa Clara County, California. medRxiv. 2020.

7. Regalado A. Blood tests show 14% of people are now immune to covid-19 in one town in Germany. MIT Technology Review. 2020.

8. Victora CG. What’s the denominator? Lancet. 1993;342:97–9.